Radialista sobe na escada e põe a boca no trombone

O Brasil já havia conquistado a Copa de 58, e o mundo, cá pra nós, não parecia mais um bicho de sete cabeças. Com os pés poderíamos fazer uma boa história. Enquanto o futebol rolava, os jornalistas davam tratos à bola para saciar a paixão do brasileiro. E o canal era o rádio, já que as transmissões dos jogos pela TV ainda eram um sonho, que só desabrocharia em 70.
As transmissões ao vivo das partidas de futebol começaram no início dos anos 30 com Nicolau Tuma. Depois outras empresas de rádio foram entrando no negócio em São Paulo, ao mesmo tempo em que os diretores de clubes começaram a jogar duro, dizendo que torcedor com a orelha grudada no rádio era torcedor fora do estádio.
Em 1934, a Rádio Cruzeiro do Sul, propriedade da poderosa Organizações Byington -pioneira da indústria eletrônica nacional- aliou-se aos cartolas e deu um golpe nas concorrentes, conseguindo a exclusividade nas transmissões ao vivo. Em troca, as Casas Byington forneciam aos clubes materiais para iluminação dos estádios a preço de custo. A Byington dava a luz e ficava com a voz do rádio.
Os locutores de rádio não estavam muito contentes com aquela história, que só teria um final feliz no início da década de 40. Mas mesmo antes que ela chegasse ao fim, os ouvintes não ficaram reféns daquela tentativa de monopólio da radiodifusão. E a briga era de gente grande.
Nicolau Tuma, o Speaker Metralhadora, por exemplo, fazia a sua parte com raça invejável. Como em dezembro de 34, quando ele estava na Rádio Difusora, depois de ter saído da Record, e quis porque quis transmitir um jogo no campo do Palestra Itália -depois Palmeiras-, que seria tricampeão paulista naquele ano, tendo como destaques os irmãos Moreira: Aimoré, o goleiro, e Zezé, o meia.
Tuma havia acertado com a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) a venda de publicidade para a transmissão do jogo. Pelo contrato com a CBD, a Difusora poderia colocar seu microfone em campo e instalar a linha telefônica. Na noite da véspera da partida, porém, a emissora foi informada que não poderia fazer a transmissão. O Palestra estava nas garras da Rádio Cruzeiro do Sul.
O Speaker Metralhadora não quis saber de conversa. Era um domingo frio e chuvoso na Capital paulista. Tuma pegou uma escada de 14 metros, colocou ao lado do estádio, acomodou-se no último degrau e soltou a voz para os ouvintes da Difusora. A irradiação saiu redonda, e o público só ficou sabendo da aventura do locutor pelos jornais.
O reinado da Rádio Cruzeiro do Sul estava com os dias contados. Em 34, cinco emissoras entraram no ar: Rádio São Paulo, Cultura, Cosmos, Difusora e Excelsior. Três anos depois vieram a Tupi e a Bandeirantes, formando um time de dez estações e um elenco de primeira, com nomes como Gagliano Neto, Geraldo José de Almeida, Otávio Gabus Mendes e Blota Júnior. Além do Speaker Metralhadora, é claro, que não calava a boca nem a pau.

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