‘Passa a bola, gordo’

“Passa a bola, gordo”. Esta frase pode matar. Não há quem resista, não há sonho que não vire pesadelo com a voz te perseguindo: “Passa a bola, gordo”. Ou, mais cruel: “Não passa a bola pro gordo”. É a mais traiçoeira das punhaladas. É o inferno que pode desaparecer por décadas. Mas reaparece. Principalmente para o sujeito que ainda se acha craque ou acha que se não fosse a maldita calúnia ainda seria o cara escolhido para trazer luz ao futebol.

Quem foi bom de bola quando magro e depois vira gordo tira o esculacho de letra. Pode no máximo ficar meio chateado, mesmo que o autor da frase tenha sido o presidente da República, como foi o caso, em palavras diferentes, quando o presidente Luula se queixou do tamanho de Ronaldo Fenômeno.

Não precisa nem ser o Ronaldo Fenômeno. Mané, por exemplo, o meia-esquerda do Estrela Vermelha – um dos mais espetaculares times de várzea de Campinas -, que já brilhara em equipes profissionais pelo país afora, de repente deu pra engordar. A ponto de, quando se dizia que ele comia a bola, sempre aparecer algum engraçadinho pra ironizar: “Estou vendo mesmo a bola”.

Mas Mané era bom de bola. Está certo que num ritmo mais lento do que o dos bons tempos, mas era bom de bola.

Nada se compara com a história de Romeu Pellicciari, meia-direita do Palmeiras, então Palestra Itália, que, ao ser convocado para a seleção brasileira de 1938, teve que subir em um navio para disputar a Copa da França. Depois de 15 dias de viagem, comendo, bebendo e jogando baralho no navio Arlanza, quando ele pisou em terra firme ele era outra pessoa. Para se ter uma idéia da comilança, Romeu saiu do Brasil  pesando 70 quilos e  pisou em terra firme com 79. Ele era a própria bola.

O preparador físico da seleção teve que dar um jeito no homem. Pensou até em adotar a fórmula de um dos treinadores de Romeu, que fazia com que ele se enrolasse por horas em cobertores, debaixo de sol, para perder peso. Mas seguiu o trivial. Além da linha-dura para que fechasse a boca até que a seleção entrasse em campo, deixou que Romeu recorresse aos laxantes, o que sempre fizera pra enfrentar a balança. E Romeu fez bonito nos gramados franceses. O Brasil conquistou o terceiro lugar e começou a mostrar a cara no mundo do futebol.

Jogador gordo sofre. Pelo menos quando se mete a correr profissionalmente atrás da bola. Depois relaxa, como fez Romeu, que, aposentado do futebol, abriu uma cantina em Ribeirão Preto, cidade de seu último time, o Comercial. Nunca mais ele quis fechar a boca.

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2 Respostas

  1. Cacalo,
    Tá ótimo. Não sei se o Mané, um dos protagonistas da crônica (é crônica mesmo, né?), tem internet. Se ele ler, vai ficar contente pela lembrança de um amigo e, mais ainda, porque – tá lá escrito – você diz que ele é bom de bola e isso não é pouco, não. (Todos os que – como nós – correram atrás dela um tempão, sabem que é um baita elogio).
    Abraços,
    saulo

    • Legal, Saulo. Você sabe que até para falar sobre o Estrela você tem a última palavra. Ainda mais para falar do Mané: baita responsabilidade. Abraços, Cacalo

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