A novela do gol: foi contra ou do atacante?

Ronaldo

Ronaldo

Washington
Washington

Bola dividida na frente do gol. O atacante quer fazer a rede balançar. O defensor quer mandar a bola para a lua. Mas a bola entra. O atacante comemora, o defensor lamenta. A continuidade da novela agora depende do juiz, que depois vai registrar na súmula: “o gol foi contra, o gol foi do atacante”.

Os jogadores vão ficar o resto do jogo com a minhoca na cabeça: “O que esse cara vai escrever no papel?”. Se ele anotou gol contra, o defensor vai passar um tempo no inferno. Se o juiz marcou gol do atacante, o artilheiro vai pro céu e ver sua pontuação crescer na artilharia.

Se o árbitro registrou gol contra, o beque pode alegar qualquer coisa: “culpa da grama, foi porque ninguém ajudou, foi culpa da bola, foi o sapo enterrado atrás da trava”. Mas para a torcida, o autor do gol contra suas próprias redes é um perna de pau, um traíra.

Para a torcida, de qualquer maneira, o mérito foi de quem estava na área para fazer a bola entrar. “O cara é uma fera”, vão dizer. Para o defensor, resta o inferno, mesmo que seja até a partida seguinte.

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Os repatriados estão chegando

Ronaldo

Ronaldo

Edmilson
Edmílson

Todos já jogaram pela seleção brasileira, andaram por todos os cantos do mundo, ganharam dinheiro e fama, e estão de volta aos gramados brasileiros. É o retorno da primeira turma mais numerosa de brasileiros que o mercado internacional agarrou e que se transformou no maior movimento de exportação de jogadores do mundo, com milhares de jogadores colocando as chuteiras no exterior, principalmente na Europa.

Ronaldo Fenômeno, 32 anos, pelo tamanho do histórico no futebol, foi a transferência que fez mais barulho. Destino: Corinthians. Diz que hoje é um louco no meio dos loucos da torcida corinthiana.

Giovanni, que foi, voltou, foi e voltou, veio para o Mogi Mirim. Prestes a completar 37 anos, agora quer um final de carreira no Santos, onde se consagrou, mas que seja algo mais elegante do que a experiência vivida com o técnico Wanderlei Luxemburgo, no time da Vila Belmiro, quando sua timidez impediu que peitasse a insensatez do técnico.

Ednílson, 32 anos, jogador mediano mas marrento para evidenciar os seus talentos, vem para o Palmeiras e torce para que não se repita no time do Parque Antárctica o episódio de Luxemburgo com Giovanni.

Amoroso volta ao Guarani, equipe onde foi revelado. Aos 34 anos, Amoroso está feliz da vida no retorno a Campinas. Quer encerrar a carreira jogando pelo Guarani.

Léo, que completa 34 anos em julho, foi contratado pelo Santos. Está de volta a Vila Belmiro, time pelo qual foi bicampeão brasileiro (2002 e 2004).

Campeonato paulista conhece uma máquina de gols

Pelé na Copa de 1958

Pelé na Copa de 1958

Bossa Nova, Cacareco, Chiclete com Banana, Flávio de Carvalho, Madureira Chorou, Pelé. Estamos batendo olhos no ano de 1958. A bossa-nova nasce com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, abrindo espaço para uma estrela de lindos joelhos e muito charme: Nara Leão.

O paulistano bota a boca nas urnas elegendo o rinoceronte Cacareco para vereador, um esculacho carimbado com mais de 100 mil votos. Jackson do Pandeiro canta a antropofágica “Chiclete com Banana”.

No Carnaval, o sucesso vem com “Madureira Chorou”, tributo à primeira vedete de subúrbio carioca, morta nas águas da Barra da Tijuca às vésperas da festa. Flávio de Carvalho sai pelas ruas do centro de São Paulo dentro de um saiote, vestimenta masculina apontada pelo artista valinhense como ideal para o verão.

Pelé faz o diabo nos campos da Suécia e ajuda o Brasil a conquistar sua primeira Copa do Mundo. Prossegue sua escalada no Campeonato Paulista, fazendo 58 gols, o que, dizem, foi feito de propósito, para coincidir com o ano de seu primeiro título paulista. Estamos falando de 50 anos passados, quando Jorge Amado nos deu “Gabrilela, Cravo e Canela” e o futebol viu aparecer o maior dos seus ídolos.

A década de 50 marcou o surgimento da mais famosa equipe do Santos. Pelé fez sua estréia no time principal em 56 e foi assinar seu primeiro contrato profissional em abril de 57. Neste ano, quase o time santista perde aquele que se tornaria o principal craque de todos os tempos.

Os cartolas santistas achavam que seu Dondinho, pai de Pelé, estava pedindo muito pelo garoto de apenas 16 anos, e quase deixaram o Rei escapulir para o Parque Antarctica, em junho de 57. Um ano depois, Pelé estaria conquistando a Copa da Suécia. Os articuladores da venda do Rei para o Palmeiras sumiram do mapa.

O Santos já havia conquistado os Paulistas de 55 e 56. No ano seguinte, embora o campeão tenha sido o São Paulo, a grande atração do campeonato fora Pelé, artilheiro com 17 gols. Os paulistas veriam em 58 um dos times mais fortes de sua história. Descontando o que acontecera no ano anterior, o Santos terminou o campeonato com quatro pontos de vantagem sobre o São Paulo, vice-campeão.

Até hoje, ninguém conseguiu superar Pelé em número de gols em um Campeonato Paulista. Nas 58 vezes que meteu a bola para o fundo das redes, Pelé ajudou a construir goleadas humilhantes a seus adversários, como os 10 a  0 contra o Nacional, 9 a 1 contra o Comercial, 6 a 1 contra o Corinthians e duas vitórias por 8 a 1 e 7 a 1contra o Guarani -O Guarani daria um troco, lembrarão os brugrinos, com razão, nos anos 60, ao vencer o esquadrão do Santos por 5 a 1 no Brinco de Ouro.

O time do Santos era tão bom que o ponta Dorval, que seria um Pelé em qualquer outro time, era chamado de grosso pela torcida. Mesmo depois de uma vitória de 7 a 1 contra o Juventus, os torcedores caíram de pau no jogador. Durval chegou a chorar. De raiva, provavelmente.

O futebol brasileiro depois dali teria sempre a marca de Pelé, que foi artilheiro paulista onze vezes, a última delas em 73, ganhou onze títulos estaduais, cinco brasileiros, dois Mundiais Interclubes e duas Libertadores (62 e 63), além de conquistar três títulos mundiais (58, 62 e 70).

A carreira do Atleta do Século -conferido ao jogador em 1980 por jornalistas do mundo inteiro- foi tão rica que até a história se atrapalhou em registrá-la. Quando conquistou seu primeiro Campeonato Paulista, em 58, mesmo os jornais foram driblados por Pelé. O número de gols apontados por eles ia de 57 a 61, até que os jornalistas confrontassem suas anotações e chegassem ao 58.

Até o milésimo gol do Rei -de um total de 1729- deu encrenca. Ele aconteceu na verdade contra o Botafogo da Paraíba, no dia 14 de novembro de 69. Mas o marco foi considerado no jogo contra o Vasco, no Maracanã, cinco dias depois, deixando os paraibanos a ver navios. Não é sempre que se ganha fama por levar um gol do adversário.

Mas aquele Brasil de 58 tinha razões para ser um pouco mais feliz do que a vida mandava. Ele sabia que teria espetáculos dignos pela frente, por longos tempos, fosse com Nara, Vinícius, João Gilberto, Tom Jobim, fosse com Pelé, que deixou sua arte nos campos de futebol por 21 anos, até que encerrasse a carreira no Cosmos, de Nova York, em 77.

Exame antidoping com xixi alheio

Zico, em atuação pela seleção brasileira

Zico, em atuação pela seleção brasileira

O jornal inglês Sunday Times entrou de bola e tudo nas denúncias contra os argentinos na Copa de 78. De acordo com o jornal sensacionalista, os jogadores argentinos jogaram dopados em todos os jogos. Aos moldes das transações financeiras golpistas, a seleção argentina teria se valido de um laranja para fazer as vezes de seus jogadores no exame antidoping.

Em plena copa realizada na Argentina, o Sunday Times causou furor ao sair com essa história de que o exame antidoping dos donos da casa estava lançando mão de xixi alheio para fazer suas averiguações. Segundo o jornal, um homem havia sido contratado para urinar no lugar dos atletas comandados por Cesar Luis Menotti.

As acusações contra a Argentina naquela Copa – uma competição da baixo nível técnico, por sinal – foram muitas. Todas elas baseadas em suposta operação de guerra montada pelos militares argentinos para que sua seleção ganhasse a disputa e desse vida à ditadura, que imperava não só lá, como aqui no Brasil e no Uruguai, só para não ir muito longe.

Da seleção brasileira, as alfinetadas questionando a lisura dos organizadores do evento vieram aos montes. Primeiro, por um gol anulado contra a Suécia, o primeiro jogo do Brasil, que terminou empatado em 1 a 1. Uma reclamação justa. O juiz Clive Thomas, do País de Gales, teve a cara de pau de anular um gol de cabeça de Zico, aos 45 minutos do segundo tempo, depois de um escanteio do lateral Nelinho, acabando com o jogo enquanto a bola estava no ar.

Ninguém entendeu  o comportamento do apito do juiz Thomas. Nem os brasileiros, que arremessaram os mais variados xingamentos contra o galês. Nem a Fifa, que advertiu o desastrado. Nem os próprios suecos – muitos deles teriam saído arrasados do gramado pelo gol no apagar das luzes, que julgavam ter sido confirmado pelo juiz.

O Brasil não estava lá essas coisas naquela Copa. Mas novas suspeitas vieram à tona quando a seleção canarinho perdeu a condição de disputar a final contra a Holanda, quando a Argentina aplicou uma goleada de 6 a 0 no Peru, um time que na fase anterior tivera o mérito de arrancar um empate dos fantásticos holandeses.

Com a tal goleada, o Brasil ficou fora da final pelo critério de saldo de gols. A Argentina levou a Copa ao derrotar a Holanda por 3 a 1. A seleção brasileira, que terminou a competição invicta, voltou para casa carregando na bagagem histórias esquisitas: do argentino contratado para fazer xixi sem anfetaminas e de uma goleada com cara de marmelada.

Futebol de botão, futebol de mesa, futmesa

Equipe paulista depois de torneio de futebol de botão

Equipe paulista depois de torneio de futebol de botão

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O futebol de botão, invenção do brasileiro Geraldo Cardoso Décourt, em 1930, era a escolinha de futebol de hoje, a escolinha tática do esporte. Não que fosse encarada dessa forma, mas era praticada nas horas que os novatos já tinham corrido atrás da bola nos lugares que na época a vida urbana permitia, nas ruas, na escola, nos campinhos e campões de terra, na praia.

Era um jeito de aprimorar o lance que não deu certo em seu jogo real ou de fazer com que o jogador de seu time predileto, com o retrato estampado no botão, fizesse o gol que no domingo anterior, em pleno estádio lotado, perdera na cara do goleiro.

No futebol de botão, este complemento da atividade esportiva, não que se pensasse: “bem, agora vou para minha aula tática de futebol”. Mas era o lugar em que se exercitava a imaginação, podia-se fantasiar com a jogada perfeita, o gol perfeito, a defesa sensacional.

É surpreendente verificar que o futebol de botão tenha resistido ao tempo e ganhado dimensões que a brincadeira na mesa de passar roupa da mãe não poderia imaginar. O futebol de botão foi exportado para diversos países e, no Brasil, está em todos os cantos. Ele criou a equipe dos botonistas, essa gente de todas as idades que faz suas jogadas incríveis sobre a mesa com a ajuda da palheta.

Os marmanjos que estão aí na foto acima com certeza tiveram suas aulas táticas de futebol, que não se chamava assim, mas que permitiam ao novato que virou marmanjo fazer o gol mais espetacular da história do futebol.

Kaká: a grana ou o travesseiro

Kaká permanece no Milan

Kaká permanece no Milan

Algo de novo acontece no futebol. Depois que se publicou a história de que Kaká havia recusado a oferta estratosférica do Mancheter City para deixar o Milan, muito se falou na mídia de que a aceitação da oferta seria questão de tempo. E os envolvidos se aquietaram.

Agora Kaká mostra que a recusa não era um blefe e que vai permanecer mesmo no Milan. A grana não falou mais alto no episódio, primeiro pelo fato de o jogador já estar com o bolso suficientemente cheio para tocar a vida como entender, segundo pelo fato de se achar estranho que alguém não se leve pelo ‘quero mais’, o que é comum no comportamento atual.

Em outros tempos do futebol, em que as transações com atletas eram mais modestas, teria sentido alguém desprezar qualquer sonho para garantir o futuro com um dinheiro maior. Atualmente, é possível a loucura de abrir mão de R$ 338 milhões em troca de poder sossegar a cabeça no travesseiro. Não é sempre que isso acontece. Mas acontece.

Juiz pisa na bola na hora H

Pelé jogou em 1973

Pelé jogou em 1973

Parece mentira. Mas os 116 mil torcedores que foram ao Morumbi assistir à decisão do Campeonato Paulista de 1973 não esquecem a derrapada. Santos e Portuguesa de Desportos estavam na final. E pela primeira vez o campeonato seria decidido nos pênaltis, depois do empate sem gols no tempo normal.

O juiz era Armando Marques, a estrela brasileira do apito. E ele estava achando estranho apitar uma decisão daquele jeito. Mas o Santos acertou duas das três primeiras cobranças. A Portuguesa, hoje Lusa, errou as três.

Teoricamente, o campeonato estava decidido para o Santos. Para a matemática, não. Se o Santos perdesse os que restavam e a Portuguesa fizesse todos, a partida estaria empatada e deveriam continuar as cobranças.

Mas algum neurônio de Armando Marques vacilou na hora H e ele encerrou a partida. No meio da zorra do final da partida, entre comemoração e protestos, o técnico Oto Glória da Portuguesa, que não estava com nenhum neurônio adormecido, mandou o time para o vestiário e que ninguém tomasse banho. A ordem era pegar a roupa e rua.

Quando Armando Marques foi alertado para a mancada, pediu que fossem chamar os jogadores da Lusa para dar fim ao jogo. Mas no vestiário da Portuguesa não tinha mais ninguém. Foi o recorde de tempo para escapulir do vestiário em todo o campeonato.

Resultado: o título paulista daquele ano foi dividido ao meio.