Campeonato paulista conhece uma máquina de gols

Pelé na Copa de 1958

Pelé na Copa de 1958

Bossa Nova, Cacareco, Chiclete com Banana, Flávio de Carvalho, Madureira Chorou, Pelé. Estamos batendo olhos no ano de 1958. A bossa-nova nasce com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, abrindo espaço para uma estrela de lindos joelhos e muito charme: Nara Leão.

O paulistano bota a boca nas urnas elegendo o rinoceronte Cacareco para vereador, um esculacho carimbado com mais de 100 mil votos. Jackson do Pandeiro canta a antropofágica “Chiclete com Banana”.

No Carnaval, o sucesso vem com “Madureira Chorou”, tributo à primeira vedete de subúrbio carioca, morta nas águas da Barra da Tijuca às vésperas da festa. Flávio de Carvalho sai pelas ruas do centro de São Paulo dentro de um saiote, vestimenta masculina apontada pelo artista valinhense como ideal para o verão.

Pelé faz o diabo nos campos da Suécia e ajuda o Brasil a conquistar sua primeira Copa do Mundo. Prossegue sua escalada no Campeonato Paulista, fazendo 58 gols, o que, dizem, foi feito de propósito, para coincidir com o ano de seu primeiro título paulista. Estamos falando de 50 anos passados, quando Jorge Amado nos deu “Gabrilela, Cravo e Canela” e o futebol viu aparecer o maior dos seus ídolos.

A década de 50 marcou o surgimento da mais famosa equipe do Santos. Pelé fez sua estréia no time principal em 56 e foi assinar seu primeiro contrato profissional em abril de 57. Neste ano, quase o time santista perde aquele que se tornaria o principal craque de todos os tempos.

Os cartolas santistas achavam que seu Dondinho, pai de Pelé, estava pedindo muito pelo garoto de apenas 16 anos, e quase deixaram o Rei escapulir para o Parque Antarctica, em junho de 57. Um ano depois, Pelé estaria conquistando a Copa da Suécia. Os articuladores da venda do Rei para o Palmeiras sumiram do mapa.

O Santos já havia conquistado os Paulistas de 55 e 56. No ano seguinte, embora o campeão tenha sido o São Paulo, a grande atração do campeonato fora Pelé, artilheiro com 17 gols. Os paulistas veriam em 58 um dos times mais fortes de sua história. Descontando o que acontecera no ano anterior, o Santos terminou o campeonato com quatro pontos de vantagem sobre o São Paulo, vice-campeão.

Até hoje, ninguém conseguiu superar Pelé em número de gols em um Campeonato Paulista. Nas 58 vezes que meteu a bola para o fundo das redes, Pelé ajudou a construir goleadas humilhantes a seus adversários, como os 10 a  0 contra o Nacional, 9 a 1 contra o Comercial, 6 a 1 contra o Corinthians e duas vitórias por 8 a 1 e 7 a 1contra o Guarani -O Guarani daria um troco, lembrarão os brugrinos, com razão, nos anos 60, ao vencer o esquadrão do Santos por 5 a 1 no Brinco de Ouro.

O time do Santos era tão bom que o ponta Dorval, que seria um Pelé em qualquer outro time, era chamado de grosso pela torcida. Mesmo depois de uma vitória de 7 a 1 contra o Juventus, os torcedores caíram de pau no jogador. Durval chegou a chorar. De raiva, provavelmente.

O futebol brasileiro depois dali teria sempre a marca de Pelé, que foi artilheiro paulista onze vezes, a última delas em 73, ganhou onze títulos estaduais, cinco brasileiros, dois Mundiais Interclubes e duas Libertadores (62 e 63), além de conquistar três títulos mundiais (58, 62 e 70).

A carreira do Atleta do Século -conferido ao jogador em 1980 por jornalistas do mundo inteiro- foi tão rica que até a história se atrapalhou em registrá-la. Quando conquistou seu primeiro Campeonato Paulista, em 58, mesmo os jornais foram driblados por Pelé. O número de gols apontados por eles ia de 57 a 61, até que os jornalistas confrontassem suas anotações e chegassem ao 58.

Até o milésimo gol do Rei -de um total de 1729- deu encrenca. Ele aconteceu na verdade contra o Botafogo da Paraíba, no dia 14 de novembro de 69. Mas o marco foi considerado no jogo contra o Vasco, no Maracanã, cinco dias depois, deixando os paraibanos a ver navios. Não é sempre que se ganha fama por levar um gol do adversário.

Mas aquele Brasil de 58 tinha razões para ser um pouco mais feliz do que a vida mandava. Ele sabia que teria espetáculos dignos pela frente, por longos tempos, fosse com Nara, Vinícius, João Gilberto, Tom Jobim, fosse com Pelé, que deixou sua arte nos campos de futebol por 21 anos, até que encerrasse a carreira no Cosmos, de Nova York, em 77.

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