Pênalti do presidente da república

Desde que a bola rola, os paulistas e cariocas se peitam. Se nos dias de  hoje os times dos dois Estados estão mais comportados, em outros tempos até a bola tremia quando eles entravam em campo. Na decisão do Campeonato Brasileiro de Seleções de 1927, por exemplo, disputado no campo do Vasco, até o Presidente da República, presente no estádio, teve de intervir, mandando seu oficial de gabinete por ordem no campo.

Os políticos estavam percebendo a importância do futebol na vida brasileira e já começavam a meter a cara nos estádios. Aquilo que até os anos 20 era uma coisa de elite – o time do fluminense, pra se ter uma idéia, costumava viajar de smoking – caiu nas graças do povo. E uma cena correta pra galera poderia significar uma goleada nas urnas.

Paulistas e cariocas dominavam o futebol brasileiro. Desde 22, vinha sendo disputado o Campeonato Brasileiro de seleções, que além de paulistas e cariocas, incluía mineiros, baianos, gaúchos e paranaenses. Depois vieram pernambucanos e paraenses. Mas na final só dava Rio e São Paulo, com as duas seleções se alternando na hora de levantar a taça.

As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 20 cresciam sem parar. Os paulistanos, naquele ano, se encheram de orgulho quando o comendador Martinelli plantou no centro da cidade, na Praça Antonio Prado, um arranha-céu de 26 andares.

Apesar do surto de febre amarela que atingiu seus subúrbios naquele ano, o Rio de Janeiro também se deliciava. O Brasil entrava na era do rádio, com o aperfeiçoamento das estações e receptores. Os cariocas podiam escutar em seus radinhos o sucesso carnavalesco do ano, “Dondoca”. Margarida Max cantava sem parar: “Dondoca, dondoca/Anda depressa/Que eu belisco essa pernoca”.
          
Para o presidente Washington Luís, o ambiente estava propício para aparecer no estádio São Januário acompanhado de todo o seu ministério e assistir à decisão entre paulistas e cariocas. Com o estádio do Vasco tomado por 35 mil pessoas, os dois times mantiveram a tradição e faziam uma partida disputadíssima. Para o presidente, a bola estaria cheia por muito tempo, se, aos 33 minutos do segundo tempo, com o jogo empatado em 1 a 1, o juiz não tivesse marcado um pênalti contra os paulistas.
         
O presidente também sairia ileso se o time paulista deixasse que o pênalti fosse batido. Afinal, embora fosse paulista, no dia anterior ele fizera a média com a imprensa local colocando os cariocas nas alturas. Mas os paulistas não queriam conversa. Foi quando Washington Luis resolveu se valer de sua autoridade e mandou que oficial de gabinete fosse até o gramado e mandasse o time paulista parar com a baderna.
         
A notícia de que o presidente mandara que os jogadores reiniciassem o jogo logo se espalhou. Foi o maior zunzunzum. Para o oficial de gabinete, aquele mostrou-se o maior estádio do mundo, embora o Maracanã não existisse nem em sonhos. Era degrau que não acabava mais. Mas ele conseguiu chegar até o gramado. Chamou então o capitão paulista Amilcar e passou o recado do presidente da República. Amilcar chamou o centroavante Feitiço e os dois decidiram mandar a resposta ao presidente por meio do exausto oficial de gabinete: “Lá em cima quem manda é ele. Cá embaixo, mandamos nós”. E os dois foram para o vestiário acompanhados pelo restante do time.
          
Para o presidente da República, restou a patética jogada final, com um jogador carioca cobrando o pênalti em um gol vazio. Vitória dos paulistas no jogo de cena. E um presidente a ver navios na Baía da Guanabara.

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