O imprevisível entra em campo

Mané Garrincha

Mané Garrincha

Se naquele domingo de Carnaval algum touro estivesse presente no estádio Universitário, na cidade do México, teria entrado em parafuso. No campo, diante de 100 mil pessoas, um sujeito meio esquisito, com a bola nos pés, corria perseguido por outro. De repente, o esquisito parava. O outro passava reto. Aí, ele ficava esperando o outro voltar. Então, fingia que ia, mas não ia. O outro caía. Depois ele saía como um louco. O outro ia atrás tentando pegar a bola. Só que o esquisito tinha deixado a bola lá atrás. E brecava. O outro se estrebuchava no chão. A cada movimento, a platéia gritava olé. Aquele olé, pensava o touro, era uma farsa. Onde estava o toureiro? Indiferente às reflexões do touro, a torcida gritou olé até o apito final.

O toureiro se chamava Mané Garrincha. O touro era o argentino Vairo. A arena era o estádio Universitário, na cidade do México. O jogo era entre Botafogo e River Plate, que aconteceu no dia 20 de fevereiro de 1958. E, desinteressada na fúria do touro, a torcida ficou enlouquecida com o baile de Garrincha em Vairo e trouxe, pela primeira vez na história, o grito de olé para um estádio de futebol.

Quando o Botafogo partiu para a excursão pelas Américas, no Natal de 57, o mundo do futebol já estava respirando o ar da Copa do Mundo, que aconteceria dali a seis meses na Suécia. Começando por São José da Costa Rica, a excursão só terminaria na cidade do México, quando aconteceu o tal jogo do olé.

O jogo contra o River Plate estava sendo aguardado com a maior ansiedade pela imprensa mexicana. O time argentino era tido como o melhor do mundo, juntamente com o Real Madrid. O River tinha 10 jogadores da seleção argentina e jogava por 10 mil dólares por partida. O Botafogo, valorizado, mas nem tanto, entrava em campo por míseros mil e quinhentos dólares, tendo como estrelas principais Nilton Santos, Didi e aquele jogador esquisito de pernas tortas que os companheiros chamavam de Mané.

Mas seria apenas um jogo normal se não estivessem em campo Mané Garrincha e o lateral Vairo, titular da seleção da Argentina. Garrincha estava inspiradíssimo, assim como estava a torcida, que percebeu naquela sequência interminável de dribles um balé das touradas. Em determinado momento do jogo, o técnico argentino Minella, temendo pela saúde mental de seu lateral, pediu a substituição. E Vairo até que saiu conformado: “É. Não há nada o que fazer. Impossível”.

O jogo terminou 1 a 1, mas para a torcida o vitorioso era aquele sujeito de pernas tortas. Os torcedores invadiram o campo e deram a volta olímpica com Garrincha nas costas.  Aquele domingo de Carnaval em terras mexicanas foi um prenúncio do que estaria para acontecer na Suécia, quando o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo.

Aquele jogo contra o River Plate ficou marcado pelo nascimento do olé no futebol, um olé que acompanharia Garrincha em três copas do mundo e muitas glórias. E o azarado argentino Vairo acabou entrando de touro na história. O futebol descobriu assim o imprevisível.

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2 Respostas

  1. Cacalo, boa tarde!
    Não sei se você se lembra de mim, mas nos conhecemos em Gonçalves – MG nas férias de julho do ano passado e você comentou comigo de tentar entrar em contato com você pela internet.
    Deixei o link do meu blog e meu email para trocarmos informações.

    Obrigado,
    Raphael

    • Raphael, seja bem-vindo ao blog.
      Claro que me lembro que nos encontramos em Gonçalves, aquela terra boa.
      Já olhei o seu blog. Bem legal.
      Vamos trocar idéias.
      Abraço, Cacalo

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