A dança da ‘bundada’

A dança dos africanos

 

Sábado, o time africano Mazembe, da República Democrática do Congo, depois de colocar em cena a dança da ‘bundada’, forma de os jogadores comemorarem o gol, vai continuar apostando na ousadia para derrotar a Inter de Milão, na decisão do Mundial de Clubes da Fifa.

Contra o Internacional de Porto Alegre, terça-feira, os africanos exibiram a dança da ‘bumdada’ na vitória por 2 a 0 contra os brasileiros. E foi graças à petulância dos seus jogadores, que não se intimidaram com o time gaúcho,  melhor que o Mazembe.

Os africanos já tinham mostrado a cara nas quartas-de-final, quando venceram o time mexicano Pachuca, também mais técnico do que o Mazembe. Tanto a equipe mexicana como a brasileira, favoritas nos jogos contra os africanos, esbarraram na alegria ousada dos jogadores do Congo – o time gaúcho disputa o terceiro lugar na partida de sábado contra o sul-coreano Seongnam.

A Inter deve estar preparada para a decisão, depois de assistir os primeiros jogos de seu adversário. E a dança da ‘bundada’ deve estar tirando o sono dos italianos.

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Elias admite escuridão na hora do gol

Comemoração corintiana - Edson Lopes Jr., Lance

Domingo, o Morumbi estava lotado para o jogo entre São Paulo e Corinthians. No gramado, desfilavam grandes sonhos de um campeonato que chegava perto do fim. Tensão. E as torcidas cerravam os olhos quando a bola ameaçava tirar uma onda diante de suas metas. Mas os jogadores juravam que mantinham os olhos bem abertos para fazer ou evitar o gol. Menos o volante corintiano, que preferiu admitir a escuridão assim que chegou diante de Rogério Ceni.

Elias poderia contar qualquer coisa sobre o momento em que, no final do primeiro tempo, recebeu um passe certeiro de Jucilei e se viu na cara da rede e do goleiro adversários. Mas ele não quis saber de conversa mole. Revelou depois que, frente à frente com o imprevisível, resolveu encher o pé de olhos fechados.

Elias poderia fazer uma firula de palavras, dizer que Ceni esperava uma bola por baixo e chutou por cima, que conhecia a forma de atuar do goleiro tricolor, que nunca perdera um gol naquelas circunstâncias. Mas nada. Foi direto ao assunto: ajeitou a bola, apagou a luz e encheu o pé.

Depois foi a vez de Dentinho fechar a vitória corintiana e colocar o time em segundo lugar na tabela do Brasileiro. Ao São Paulo, restou lamentar a aparição demolidora de Elias, que não fez questão de colorir um gol apenas feito  na hora certa.

Jabulani, o mico da Copa

Jabulani

Quem inventou a bola da Copa da África do Sul deve entender muito de Física, mas não entende nada de futebol. O inventor simplesmente acabou com um dos fundamentos mais nobres do futebol, o lançamento.

Restou o passe curto – como o técnico da Holanda recomendou aos jogadores  no início da competição -, para afugentar o momento “bumerangue” da bola, aquele em que ela enlouquece e começa a se comportar como pipa sem rabo.

Isso sem falar nos goleiros, que, amedrontados, passaram a rebater a Jabulani  para todos os lados, como uma cópia maluca de Sérgio Escadinha, líbero da seleção brasileira de vôlei.

Júlio César, goleiro da seleção brasileira, definiu a bola criada pela Adidas como “bola de supermercado”, e Fabio Capello, técnico da seleção inglesa, como a pior que já viu em toda a sua vida. Os especialistas em material esportiva deveriam aprimorar os conhecimentos sobre a história do esporte antes de colocar a bola em jogo.

Bola zomba dos goleiros

Torcida africana

Torcida

A Jabulani mostrou a cara no jogo entre Inglaterra e Estados Unidos, quando ziguezagueou na frente do goleiro Green e deu o empate aos americanos no sábado.

Domingo foi a vez do goleiro argelino Chaouchi, que tomou o único gol do jogo contra a Eslovênia.

Enquanto a bola zomba dos jogadores, os técnicos dão tratos à bola de como lidar com ela. O técnico da Holanda, time que venceu ontem a Dinamarca por 2 a 0, orientou os atletas que a Jabulani não gostava de passes longos e lançamentos.

A ordem de Bert van Marwijk era para que escolhessem os passes curtos. Não recomendava também chutes longos, que levavam a bola para as nuvens em Johannesburgo.

O ideal era para que optassem por arremates de média distância. Aí, os goleiros que se ver diante da Zabulani. A bola e a Vuvuzela, por sinal, estão na mira da Fifa.

Técnicos, jogadores, jornalistas e parte dos torcedores – aqueles sem a Vuvuzela – não podem nem mais pensar nas cornetas, os marimbondos que invadiram os estádios. A Zabulani cuida dos frangos, a Vuvuzela testa o equilíbrio mental.

A beleza da bola foi pro brejo?

Zico

Kaka

Dunga

Jogar feio ou bonito? Jogar no ataque ou na retranca? Esta seria uma questão difícil se não existisse a memória.

Nas vezes em que a seleção brasileira jogou claramente no ataque, ela venceu quatro vezes (1958, 1962, 1970 e 2002), bateu na trave em 1938 (terceiro lugar), em 1950 (segundo lugar), em 1954 (quinto lugar), 1974 ( quarto lugar), 1978 (terceiro lugar e única seleção invicta na copa), 1982 ( quinto lugar de um futebol exuberante), 1986 (quinto lugar) e 2006 (segundo lugar).

A única vez em que jogou e foi campeã fora de seu estilo claramente ofensivo foi em 1994. Mas aquela equipe tinha no ataque Bebeto e Romário, este no auge da carreira, além de Dunga e Jorginho, os homens que hoje estão dando ordens no banco e que querem uma seleção cautelosa, como a de 1994.

A ousadia e a surpresa dos dribles foram pro brejo?

Dunga chama Escadinha para o gol

Júlio César

A indústria esportiva, particularmente no segmento de bolas, arma um espetáculo dedicado aos gols. E coloca nas copas uma bola cada vez mais leve e traiçoeira para os goleiros. Ou seja, para a indústria dos esportes, vale o ataque, não vale a defesa, com crucificação maior dos goleiros.

O novo goleiro, de acordo com a Fifa e com a Adidas, fabricante de bola, vai ter agora que se preparar como se o futebol fosse jogo vôlei. Dunga deveria levar o volante Escadinha, craque da seleção brasileira de vôlei, para disputar a Copa da África do Sul.

Júlio César, o goleiro brasileiro tido como o melhor do mundo, já escrachou a bola Jabulani, preparada para o campeonato que está prestes a acontecer pela primeira vez no continente africano. “É horrível, horrorosa. Parece bola que a gente compra em supermercado”, disparou o atleta da Inter de Milão.

Jabulani

O sufoco com a “bola bumerangue” não fica só para os goleiros, que agora não podem nem pensar em agarrar uma bola – para tristeza daqueles que viam beleza também na atuação dos goleiros e nos seus vôos espetaculares para segurar a pelota. Espalmar a bola era coisa só para defender os canhões, como de Roberto Carlos, Rivelino, Éder, Nelinho, Pepe…, sem contar os atletas de outras seleções e especialistas em bombardeios.

Os atacantes também fazem careta para a Jabulani, para desaponto de alguns atletas patrocinados pela Adidas, como Kaká, Cech, Lampard e Ballack. O brasileiro Júlio Baptista não poupou o novo modelo e foi na canela da Jaburani: “Nas jogadas pelas laterais, quando damos aquela rosca para cruzar, ela sai do lado contrário. Se você chuta de longe, ela pode fazer três ou quatro curvas na trajetória”.

Ou seja, a bola adquiriu vida, independente da vontade dos jogadores. Que venha então o Escadinha, o goleiro ideal em tempos de Jabulani.

A paradinha dá um breque

A FIFA resolveu dar um breque na paradinha no futebol, jogada que, na hora do pênalti, o atacante ameaça chutar e faz o goleiro saltar para uma bola inexistente. A partir do mês que vem, a artimanha brasileira, popularizada por Pelé e que ganhou fama recente nos pés de Neymar, vai sair de cena, a não ser que a jogada ocorra quando o jogador estiver na corrida para cobrança, como fazia Pelé. Caso contrário, será cartão amarelo e repetição da cobrança.

Com a paradinha, restava para o batedor da penalidade arrastar a bola para o canto desguarnecido. A paradinha era assim um fuzilamento sem piedade, um fuzilamento que não desse chance para o goleiro se defender. Era morte certa – ou quaser certa.

Quase certa porque alguns batedores de pênalti, depois de deslocar o goleiro, enfiavam a bola no nariz, errassem o alvo, como se fizessem o goleiro renascer, um tipo de milagre esportivo. Algumas cobranças chegavam a fazer a bola beijar a trave, como que empurradas por algum sapo esperto escondido atrás do gol.

Na Copa do Brasil, do ano passado, por exemplo, Maicosuel, o 10 do Botafogo do Rio, em jogo contra o Americano, no Engenhão, foi o dono do espetáculo. O resultado de 1 a 1 garantia ao time de Campos seguir em frente na Copa do Brasil. Mas Maicosuel, o 10 do Botafogo, roubou uma bola da defesa adversária aos 46 minutos do segundo tempo, ziguezagueou e bateu. Foi a glória: 2 a 1 para o Bota. A decisão foi para a disputa de pênaltis.

 Não tem praga maior, pensaram os jogadores do Americano. Tomar um gol no apagar das luzes era como bater na porta do inferno. O time sorteado para dar a largada nos pênaltis foi o Botafogo. Os jogadores do Americano levantaram a cabeça e viram o diabo: Maicosuel.

 Jefferson, o goleiro, conversou com suas luvas: “Lá vem o desgraçado”. E se ajeitou entre as traves como que para receber o tiro de morte. Afinal, se o cara meteu uma bomba no final do jogo do meio da rua e ele nem viu direito como que ela entrou, o que falar do pênalti.

Maicosuel, o herói do jogo, olhou o goleiro adversário com desdém. “Pega, filho”, comentou com a bola depois de prepará-la na marca da cal. O botafoguense partiu para a bola e chutou. Jefferson foi para o lado esquerdo, mas não viu bola nenhuma, para lado nenhum. Maicosuel, o desgraçado, havia lhe enganado e chutara o ar. Não tinha mais o que fazer. O gol estava escancarado.

 Como um pêndulo, a perna do botafoguense voltou para enterrar o defunto. E buscou o lado direito. A bola veio mansa, como que para torturar o goleiro pelas entranhas. O engano dessa história foi imaginar que a bola estava pouco ligando para o seu final. E ela foi bater, distraidamente, com a cara na trave. Dali para a frente, os jogadores esqueceram a firula. E todas as bolas balançaram a rede. O Americano ganhou o jogo.