Leônidas e Ronaldo: famoso pobre e famoso rico

Ronaldo assina com o Corinthians

Ronaldo assina com o Corinthians

A cadeia de negócios hoje no futebol não tem fim. A chegada de Ronaldo Fenômeno ao Corinthians é um exemplo da correria para se fazer o dinheiro se multiplicar o mais rapidamente possível. Hoje é Ronaldo, ontem foi Leônidas da Silva, o Diamante Negro. Os dois centroavantes têm um capítulo particular nessa história de transações de craques no eixo Rio-São Paulo. Ronaldo, que flertava com o Flamengo e veio parar no Corinthians, nada em dinheiro. Leônidas, que veio do mesmo Flamengo para o São Paulo, em 1941, deu as braçadas que o mercado permitia. Pouco antes da transferência, amou a grande tacada da carreira. Batizou o chocolate Diamante Negro, que ilustra padarias e lanchonetes há quase 70 anos. Ganhou uma mixaria.

O profissionalismo no futebol passava por momentos distintos. Enquanto Leoninas praticamente abriu as portas do futebol brasileiro para que se entendesse o jogo de futebol como o espetáculo que dava grana aos clubes e nada aos artistas da bola, Ronaldo vive o futebol globalizado em que se movem rios de dinheiro a cada jogada.  

A vida de Leônidas foi diferente. Durante grande parte de sua carreira, por exemplo, antes de começar o jogo, ele ia até as numeradas para saber dos torcedores quanto valeria cada gol que fizesse. Depois daquela vaquinha improvisada, voltava ao campo e fazia gols. Aos montes e de todas as maneiras. Mas um em especial valia mais que outros, o gol de bicicleta, jogada que se tornou sua principal marca.

Cobrar das numeradas pelos gols era coisa de mercenário, diziam os defensores do futebol amador. É que o profissionalismo do futebol brasileiro ainda nem calçara chuteiras. Os clubes achavam que cobrar para jogar era falta de amor à camisa. A questão é que não havia time que se segurasse só com jogadores ricos, como aconteceu no primeiro período do futebol nacional. Mas mesmo antes de 33, quando foi oficializada a profissionalização do futebol no Brasil, ninguém entrava em campo sem ver a cor do dinheiro.

Leônidas, o Diamante Negro, teve o mérito de entender que o futebol – já um esporte de massa em 1930 – era um negócio. Percebeu que aquela história de só jogar por amor à camisa era balela. Os estádios viviam cheios e os torcedores pagavam ingresso.

Leônidas teria que driblar a cartolagem para salvar o seu futuro. Não com tanta maestria como driblava seus adversários em campo.  Quando ele assinou seu primeiro contrato com o Bonsucesso, por exemplo, ele recebeu como luvas dois ternos e dois pares de sapato. E quando deu o nome ao chocolate Diamante Negro, ele recebeu 3 contos de réis, uma bagatela incapaz de comprar um Ford Bigode, a grande atração da época.

O Ford ele só iria ganhar no auge da fama, quando passou a competir em popularidade com o presidente Getúlio Vargas, o pai dos pobres, e Orlando Silva, o cantor das multidões. Foi quando jogava pelo Flamengo, em 1939, em que a Companhia de Cigarros Magnólia fez um concurso para saber quem era o jogador mais popular do Rio.

Leônidas ficou dias no Café Rio Branco recebendo os torcedores que lhe entregavam maços de cigarros. Cada um valia um voto. Foram mais de 300 mil maços e um Ford para o Diamante Negro, que depois da bicicleta acumulou mais um apelido: o Homem de Borracha.

O futebol brasileiro na terceira Copa do Mundo, em 1938, na Itália, começou a mostrar sua arte com mais clareza, e Leônidas teve papel fundamental. Mas na semifinal, sem o centroavante que se machucara contra os tchecos, o Brasil levou a pior contra a Itália. A Azurra foi para a final contra a Hungria e se tornou bicampeã mundial. Mesmo sem jogar contra a Itália, Leônidas foi o artilheiro da competição, com sete gols.

Depois daquela copa, Leônidas voltou consagrado. Ficou mais algum tempo no Flamengo e se transferiu para o São Paulo, em 1942, naquela que foi a maior transação do futebol brasileiro. Na sua chegada a São Paulo, foi recebido por 10 mil pessoas na Estação da Luz – ao se levar em conta a população paulistana do período, era torcida sem tamanho. Leônidas permaneceu no São Paulo até encerrar a carreira, em 50.

O Diamante Negro foi o astro daquele período de profissionalização do futebol brasileiro. Leônidas fez a sua parte, conquistou cinco campeonatos paulistas e marcou 140 gols pelo São Paulo, sem contar o desempenho nos equipes anteriores, principalmente do Flamengo e seleção brasileira. E a torcida do Corinthians quer ver Ronaldo brilhar. O Campeonato Paulista de 1999 já vai começar.

Leônidas da Silva faleceu no dia 24 de janeiro de 2004, aos 90 anos, na cidade de Cotia, São Paulo.

Anúncios