Anelka chuta o balde e sai de cena

O técnico Domenech e Anelka

“Vá tomar no…, sujo filho da p…”. Este chute na canela do técnico da seleção francesa Raymond Domenech  teria partido do atacante Nicolas Anelka, depois de ter sido criticado no intervalo da partida contra o México, na quinta-feira. E ontem a Federação Francesa (FFF)  tirou o jogador do Chelsea da Copa do Mundo.

Depois do bate-boca, segundo o jornal L’Équipe, durante a manhã deste sábado houve uma reunião entre Domenech, Anelka e Patrice Evra, capitão dos Bleus. Jean-Pierre Escalettes, presidente da Federação Francesa, pediu então a Anelka que pedisse desculpas oficiais à opinião pública francesa, a Domenech, aos jogadores e à comissão técnica.
Como Anelka não quis conversa, decidiu-se pela sua exclusão do grupo.

Anelka vinha reclamando de estar muito isolado no ataque. Queria atuar mais pelos lados, idéia descartada por Domenech.
Nos dois jogos da França na Copa do Mundo, Anelka foi titular. Mas teve atuações discretas na estreia contra o Uruguai (0 a 0) e  na partida contra o México (derrota por 2 a 0).

A França pode ser eliminada ainda na primeira fase da Copa do Mundo. A equipe tem apenas um ponto no grupo A, ao lado da África do Sul. Uruguai e México estão com quatro. Na terça-feira, os Bleus enfrentam os sul-africanos em Bloemfontein às 11h (horário de Brasília).

O imprevisível entra em campo

Mané Garrincha

Mané Garrincha

Se naquele domingo de Carnaval algum touro estivesse presente no estádio Universitário, na cidade do México, teria entrado em parafuso. No campo, diante de 100 mil pessoas, um sujeito meio esquisito, com a bola nos pés, corria perseguido por outro. De repente, o esquisito parava. O outro passava reto. Aí, ele ficava esperando o outro voltar. Então, fingia que ia, mas não ia. O outro caía. Depois ele saía como um louco. O outro ia atrás tentando pegar a bola. Só que o esquisito tinha deixado a bola lá atrás. E brecava. O outro se estrebuchava no chão. A cada movimento, a platéia gritava olé. Aquele olé, pensava o touro, era uma farsa. Onde estava o toureiro? Indiferente às reflexões do touro, a torcida gritou olé até o apito final.

O toureiro se chamava Mané Garrincha. O touro era o argentino Vairo. A arena era o estádio Universitário, na cidade do México. O jogo era entre Botafogo e River Plate, que aconteceu no dia 20 de fevereiro de 1958. E, desinteressada na fúria do touro, a torcida ficou enlouquecida com o baile de Garrincha em Vairo e trouxe, pela primeira vez na história, o grito de olé para um estádio de futebol.

Quando o Botafogo partiu para a excursão pelas Américas, no Natal de 57, o mundo do futebol já estava respirando o ar da Copa do Mundo, que aconteceria dali a seis meses na Suécia. Começando por São José da Costa Rica, a excursão só terminaria na cidade do México, quando aconteceu o tal jogo do olé.

O jogo contra o River Plate estava sendo aguardado com a maior ansiedade pela imprensa mexicana. O time argentino era tido como o melhor do mundo, juntamente com o Real Madrid. O River tinha 10 jogadores da seleção argentina e jogava por 10 mil dólares por partida. O Botafogo, valorizado, mas nem tanto, entrava em campo por míseros mil e quinhentos dólares, tendo como estrelas principais Nilton Santos, Didi e aquele jogador esquisito de pernas tortas que os companheiros chamavam de Mané.

Mas seria apenas um jogo normal se não estivessem em campo Mané Garrincha e o lateral Vairo, titular da seleção da Argentina. Garrincha estava inspiradíssimo, assim como estava a torcida, que percebeu naquela sequência interminável de dribles um balé das touradas. Em determinado momento do jogo, o técnico argentino Minella, temendo pela saúde mental de seu lateral, pediu a substituição. E Vairo até que saiu conformado: “É. Não há nada o que fazer. Impossível”.

O jogo terminou 1 a 1, mas para a torcida o vitorioso era aquele sujeito de pernas tortas. Os torcedores invadiram o campo e deram a volta olímpica com Garrincha nas costas.  Aquele domingo de Carnaval em terras mexicanas foi um prenúncio do que estaria para acontecer na Suécia, quando o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo.

Aquele jogo contra o River Plate ficou marcado pelo nascimento do olé no futebol, um olé que acompanharia Garrincha em três copas do mundo e muitas glórias. E o azarado argentino Vairo acabou entrando de touro na história. O futebol descobriu assim o imprevisível.