Rádio invade campos e ringues

Nicolau Tuma

Nicolau Tuma

 
O  radiojornalismo esportivo no Brasil foi uma aventura radical. O locutor Nicolau Tuma, o “Speaker Metralhadora”, o homem que fez a primeira transmissão ao vivo de uma partida de futebol, entre as seleções paulista e paranaense, em 1931, também deu tratos à bola para transmitir a luta pelo título mundial, em 38, entre o lendário americano Loe Louis e o chileno Arturo Godoy, o desafiante. Lá vai.

Naquela época, o sistema de microondas ainda tirava soneca na cabeça dos cientistas e a telefonia no Brasil, que deveria servir de guindaste para o rádio, era uma piada

Na noite da tal luta entre Louis e Godoy, mesmo quem era do ramo achou estranhamente fantástico uma transmissão ao vivo diretamente do Madison Square Garden, de Nova York, sabendo que a comunicação via telefone de então tinha eficiência modesta.

Tuma já vinha tentando fazer transmissões “ao vivo” de lutas nos Estados Unidos, mas vinha tomando alguns nocautes. Diante das dificuldades de fazer a transmissão de Nova York para o Brasil por telefone, o “Speaker Metralhadora” começou a se valer das emissões norte-americanas, cujas irradiações eram captadas em São Paulo em ondas curtas.

Era só ouvir, traduzir e adequar a locução para o padrão de velocidade local. As experiências com esse tipo de artimanha não chegavam a ser medonhas, mas o atraso e escorregões eram inevitáveis. O “Speaker Metralhadora”, porém,  não queria saber de jogar a toalha.

Para a luta entre Louis e Godoy, o locutor armou um circo na Rádio Cultura, na verdade um ringue, intuindo que seria necessário teatralizar a farsa para dar vida à transmissão. E convidou dois amigos, um americano e um uruguaio, para participar de uma luta de mentirinha. O americano era clone de Louis e o uruguaio fazia as vezes do chileno Godoy.

Na hora da luta, ele enfiou fones de ouvido em cada um dos farsantes, que escutavam a luta em inglês e espanhol. E os caras, tendo como platéia Nicolau Tuma, iam encenando socos e esquivas. Enquanto isso, o speaker soltava sua metralhadora com precisão. Foi um sucesso. O Brasil já conseguia fazer transmissões esportivas ao vivo, diretamente de Nova York.

Se no pugilismo o rádio já começava dar golpes certeiros, no futebol ele vinha dando goleadas. Até que os diretores de clubes, alegando que o rádio estava criando uma geração de torcedores caseiros e pouco interessados em esquentar arquibancadas nos estádios, resolveram proibir transmissões ao vivo. Foi um intervalo de ouvidos carrancudos.