Ronaldo se prepara para um campeonato em que era proibido vaiar

Ronaldo Fenômeno

Ronaldo Fenômeno

 A plaqueta na arquibancada do Velódromo, estádio do Paulistano em que foi disputada a primeira partida do campeonato paulista entre o time da casa e o São Paulo Athletic, que não é este São Paulo de agora, dizia o seguinte: “É expressamente proibido vaiar”.

As 4 mil pessoas que em 1902 foram ao Velódromo, que ficava na rua Nestor Pestana, em São Paulo, tinham que se contentar em bater palminhas. Mais britânico impossível. Mas se imaginarmos que naquele tempo se exigia desculpas em inglês do jogador que fizesse falta, dá para entender a proibição.

Ronaldo Fenômeno, que assinou contrato por um ano com o Corinthians, se prepara para estrear no time do Parque São Jorge no Paulista do ano que vem, mais de cem anos depois da história da plaqueta. Enquanto isso a diretoria do clube corre para fazer dinheiro com a contratação, pagar o jogador e armar a equipe que escapuliu com elegância da séria B do Brasileirão deste ano. 

Recém nascido, o futebol começava a engatinhar no Brasil quando os paulistas inauguraram o campeonato do Estado, que contou então com apenas cinco times. E o São Paulo Athletic levantou a primeira taça ao derrotar o Paulistano, taça batizada de Casimiro da Costa – na verdade, o Campeonato Paulista era um torneio de paulistanos.

 A cidade de São Paulo era diferente na época. Em 1903, por exemplo, ano do segundo campeonato, a Capital paulista, num gesto modernoso, resolveu regulamentar o tráfego de automóveis na cidade, além de limitar a velocidade a 30 quilômetros por hora. Qual era a frota de carros? Seis. Isto mesmo: meia dúzia, o dobro da do Rio de Janeiro.

O torcedor que foi ao Velódromo, para assistir pela segunda vez a uma decisão entre São Paulo Athletic e Paulistano, não tinha que se preocupar muito com um possível atropelamento. Ou ele ia a pé ou de bonde, uma palavra capturada do nome da empresa Bond & Share, que introduziu o carril elétrico de transporte urbano no Brasil.

Se o paulistano não tinha que se preocupar para atravessar uma rua, ele tinha que ficar atento à vestimenta com que saía de casa. Por não atinar este detalhe, um jogador do São Paulo quase melou a decisão do segundo campeonato paulista. O problema é que o jogador, um inglês que trabalhava em São Paulo, saiu para o Velódromo já devidamente uniformizado.

Quando atravessava a praça Antônio Prado, um policial estranhou as roupas daquele homem. O jogador tentou explicar. Em inglês. Foi parar na delegacia, cujo BO o dedou de “circular em trajes carnavalescos, fora de época, ofensivos ao pudor por deixarem à mostra as pernas em público, no centro da cidade”.

Enquanto isso, no Velódromo, o São Paulo, provavelmente sem reservas, se negava a entrar em campo sem o inglês. Com trinta minutos de atraso no início do jogo, os cartolas resolveram pedir ajuda à polícia para encontrar o jogador. O carnavalesco de pernas de fora foi então liberado para o jogo.
Com o inglês em campo, o time de Charles Miller ganhou de 2 a 1, para desespero do Paulistano, que reclamou com razão da arbitragem de Egídio de Souza Aranha. Além de não ter marcado um pênalti para o Paulistano, o juiz, que devia ter algum compromisso, acabou o jogo sete minutos antes do tempo normal, que na época era de 35 minutos cada etapa.

O São Paulo Athletic voltaria a ganhar o campeonato seguinte, ficando em definitivo com a taça Casemiro da Costa. Hoje, em um clássico entre Corinthians e Palmeiras, o torcedor pode ir ao estádio de pernas de fora que o policial não vai achar que é atentado ao pudor. Pode vaiar a vontade, principalmente se o juiz quiser acabar o jogo antes da hora. Mas cuidado com o trânsito de veículos, torcedor. A cidade de São Paulo não tem mais seus seis automóveis do início do século passado.